O "quintal" da Educação Infantil é maior que o mundo: experiências corpo-chão e possibilidades criativas com e na natureza
Criatividade; Educação Infantil; Natureza; Corpo-chão.
Diversos contextos contemporâneos, caracterizados pelo aumento do acesso às telas digitais, a ausência de tempos e espaços destinados à invenção e exploração, bem como a sobrecarga de informações, tendem a reduzir o potencial de momentos criativos na infância. Em contrapartida, a interação com o ambiente natural apresenta-se como um estímulo significativo à criatividade, devido às suas texturas, cores, aromas, sons e experiências sensoriais. Nesse sentido, entendemos que a Educação Infantil configura-se como um "quintal", propício à promoção de possibilidades criativas, especialmente quando favorece e valoriza as experiências das crianças com elementos naturais, promovendo uma relação integrada entre corpo e ambiente, e estimulando a conexão corpo-chão. Esta pesquisa objetivou, então, compreender como se desenvolvem processos criativos-inventivos nas experiências corpo-chão vivenciadas pelas crianças no espaço-tempo de uma turma de um Centro de Educação Infantil do município de Jaboatão dos Guararapes/PE. Para tanto, percorremos um caminho teórico-metodológico orientado pela Experiência e Cartografia, considerando os conceitos de: criatividade, a partir de autores/as como: Lubart e Sternberg (1995); Ostrower (2014); Vygotsky (2018); Merlin e Salort (2019); Kastrup (2001/2008); Deleuze e Guattari (2011). Também recorremos ao conceito de infância(s) e as relações espaço/tempo e natureza na Educação Infantil, sob as perspectivas teóricas de Agambem (2005); Kohan (2011; 2016; 2018); Larrosa (2022); Tiriba (2005) e Piorski (2016; 2023). A pesquisa qualitativa teve como base metodológica a pesquisa-intervenção e cartografia. A construção dos dados se deu a partir de pesquisa em campo em uma turma de Educação Infantil, com observações participantes e criação coletiva de sessões inventivas, que por meio da videografia e Análise Interacional (AI) foram descritas e analisadas. Como resultados, identificamos que as interações orgânicas e a brincadeira simbólica emergentes potencializam processos criativos, que aliados à natureza, ampliam os processos intuitivos, coletivos, simbólicos e combinatórios da criatividade, demonstrada através dos registros, das experimentações e da brincadeira simbólica. Por outro lado, a ausência de espaços, a má organização do tempo e as situações pedagógicas direcionadas se apresentaram como despotencializadores da criação. Neste cenário, a pesquisa revela a necessidade de ampliar o vínculo entre crianças e natureza no contexto da Educação Infantil, envolvendo: a ampliação das normativas curriculares vigentes; políticas públicas de avaliação de contexto dos espaços e propostas arquitetônicas das instituições de Educação Infantil e processos de formação docente voltados à valorização dos ambientes naturais e ao desemparedamento.