Palavra que sustenta a terra: leitura de mundo e formação política nas Cartas das Assembleias Xukuru do Ororubá
Educação fora da escola. Leitura de mundo. Formação política. Povo Xukuru do Ororubá. Colonialidade.
Esta dissertação investiga a leitura de mundo produzida nas Cartas das Assembleias do povo Xukuru do Ororubá — série documental composta por vinte e quatro edições, cobrindo o período de 2002 a 2025 — e analisa como essa leitura opera como formação política, constituindo condições discursivas para a produção de identidade coletiva e para a orientação de práticas de resistência territorial. O problema parte da constatação de que as Cartas constroem, de forma sistemática e reiterada, uma estrutura interpretativa da realidade sobre quatro temas centrais — desenvolvimento, natureza, direitos e justiça —, estrutura que configura discursivamente posições de sujeito coletivo, orientações normativas para a ação e regimes de memória que tornam a resistência historicamente sustentável. A pesquisa é de natureza qualitativa e documental, conduzida a partir da perspectiva discursiva de Orlandi, em articulação com a teoria freireana da leitura de mundo, as pedagogias decoloniais de Walsh e as contribuições de Brandão, Jara e bell hooks sobre formação política extraescolar. Os operadores analíticos mobilizados — leitura de mundo, formação política, sujeito coletivo, território e colonialidade — são fundamentados em Freire, Quijano, Mignolo, Maldonado-Torres, Acosta e Krenak. A análise, organizada em três movimentos consecutivos, demonstra que as Cartas produzem uma leitura de mundo que se elabora progressivamente ao longo da série, articulando a recusa do desenvolvimentismo, uma ontologia da Natureza Sagrada irredutível à racionalidade mercantil, o uso estratégico e crítico do aparato jurídico e uma concepção de justiça que excede a reparação penal para alcançar o reconhecimento político da plurinacionalidade. A contribuição original da pesquisa ao campo da Educação reside no deslocamento analítico que trata as Assembleias e suas Cartas como práticas de formação política — educação fora da escola —, demonstrando que a luta territorial Xukuru é inseparável de uma luta pela legitimidade de uma leitura de mundo.