Ecologia da resistência antimicrobiana na fauna silvestre: Implicações clínicas e conexões entre uma só saúde e medicina da conservação
Resistência bacteriana a múltiplos fármacos. Genética bacteriana. Biofilme bacteriano. Vigilância epidemiológica. Medicina da conservação
A resistência aos antimicrobianos (RAM) em bactérias associadas à fauna silvestre é um desafio emergente com número reduzido de estudos, especialmente em centros de reabilitação e em ecossistemas aquáticos antropizados. Diante disso, investigou-se os perfis fenotípicos e genotípicos de resistência, os índices de resistência múltipla a antibióticos (MAR) e a formação de biofilme em Staphylococcus spp. e Mammaliicoccus sciuri isolados de Primatas Não Humanos neotropicais, outros mamíferos silvestres e répteis em reabilitação no Nordeste do Brasil e botos Inia araguaiaensis na Amazônia. Foram coletadas amostras retais de 20 Sapajus libidinosus em reabilitação, amostras orofaríngeas e retais de 84 mamíferos silvestres de 15 espécies, amostras orofaríngeas e cloacais de 87 répteis de seis espécies e amostras de lesões cutâneas de oito botos, com isolamento bacteriano em ágar Sal Manitol. A identificação foi realizada por espectrometria de massas por dessorção/ionização a laser assistida por matriz e tempo de voo, e a suscetibilidade a diferentes antimicrobianos foi avaliada pelo método de disco-difusão. A detecção de genes de resistência, aos beta-lactâmicos, aos macrolídeos, às tetraciclinas e às fluoroquinolonas, foi por reação em cadeia da polimerase e a quantificação da formação de biofilme pelo método do cristal violeta foram aplicadas em subconjuntos de isolados. No conjunto dos estudos, foram obtidos 188 isolados, com predominância de Mammaliicoccus sciuri (120/188; 63,8%). Em Sapajus libidinosus, foram recuperados 19 isolados, com resistência à penicilina em 12/19 (63,2%) e à tetraciclina em 11/19 (57,9%), multirresistência em 4/19 (21,1%) e detecção dos genes tetM em 7/19 (36,8%), tet(38) em 6/19 (31,6%), blaZ em 5/19 (26,3%), msrA em 5/19 (26,3%) e mecA em 1/19 (5,3%). Em mamíferos silvestres, houve crescimento bacteriano em 63/84 (75,0%) animais, com 63 isolados, dos quais 32/63 (50,8%) foram resistentes a pelo menos um antimicrobiano e 12/63 (19,0%) foram multirresistentes, observou-se resistência à cefoxitina em 18/63 (28,6%), eritromicina em 17/63 (27,0%), tetraciclina em 16/63 (25,4%) e clindamicina em 14/63 (22,2%); índices de MAR variando de 0,00 a 1,00 (média 0,21) e formação de biofilme em 33/63 (52,4%) isolados. Em répteis, foram obtidos 87 isolados, majoritariamente M. sciuri (79/87; 90,8%). Observou-se resistência a pelo menos um antimicrobiano em 46/87 (52,9%) dos isolados, com resistência à oxacilina em 40/87 (46,0%) e eritromicina em 16/87 (18,4%), multirresistência em 12/87 (13,8%) e índice MAR > 0,20 em 22/87 (25,3%). Em Inia araguaiaensis, foram recuperados 19 isolados, com predomínio de S. aureus, S. warneri e S. epidermidis (4/19; 21,1% cada), resistência à penicilina em 18/19 (94,7%) e multirresistência em 4/19 (21,1%). Os genes blaZ, mecA, msrA, norC, tetL e tetM foram detectados em 8/19 (44,4%), 2/19 (10,5%), 2/19 (10,5%), 2/19 (10,5%), 3/19 (15,8%) e 1/19 (5,3%) isolados, respectivamente, e a formação de biofilme foi observada em 15/19 (78,9%) isolados, incluindo 4/15 (26,7%) fortes produtores. Em conjunto, os resultados demonstram que mamíferos silvestres e répteis em reabilitação, bem como botos amazônicos, atuam como bioindicadores de RAM em ambientes terrestres e aquáticos, reforçando a necessidade de vigilância microbiológica e fortalecimento de medidas de biossegurança em centros de atendimento à fauna.