GÊNESE, GEOQUÍMICA E MINERALOGIA DE SOLOS SALINOS NA BACIA DO JATOBÁ, SEMIÁRIDO BRASILEIRO
Solos salinos. Gipsificação. Fixação de potássio. Vermiculita. Ilita. Biotita. Filos-silicatos 2:1. Semiárido. Agricultura irrigada.
O semiárido brasileiro apresenta solos com características peculiares, resultantes da in-teração entre clima (baixa pluviosidade <600 mm ano⁻¹, elevada evapotranspiração), materiais de origem diversos. Neste contexto, os solos aluviais da várzea do rio Moxotó, na Bacia do Jatobá (Ibimirim, Pernambuco), constituem sistemas de elevado potencial produtivo para agricultura irrigada, mas apresentam limitações relacionadas à salinidade e incertezas quanto à dinâmica de nutrientes essenciais como o potássio. Esta tese teve por objetivo investigar (1) as origens da salinização e seus efeitos pedogenéticos, e (2) os mecanismos de fixação e libe-ração de potássio em função da mineralogia das diferentes frações granulométricas. Foram amostrados dois perfis representativos de solos aluviais, aos quais se aplicaram análises quí-micas (composição iônica, condutividade elétrica, teores totais por fluorescência de raios X, potássio trocável e solúvel, capacidade de troca catiônica, extrações seletivas de Fe), minera-lógicas (difração de raios X, índice de saturação mineral, microscopia eletrônica de varredura acoplada à espectroscopia de energia dispersiva, micromorfologia), e ensaios de fixação de K nas frações terra fina seca ao ar, areia fina, silte, argila grossa e argila fina. Os resultados do primeiro capítulo demonstraram que a salinização é predominantemente controlada por fato-res de natureza geoquímica e hidrogeológica, não pela irrigação. Os horizontes superficiais apresentaram salinidade extrema com assinaturas iônicas dominadas por Na–Cl e Ca–SO₄, enquanto as águas de irrigação exibiram condutividade substancialmente inferior e composi-ção distinta. A modelagem geoquímica e as evidências estratigráficas indicaram dissolução de depósitos evaporíticos/lacustres subjacentes e transporte ascendente via flutuação do lençol freático como principal mecanismo de aporte salino. As respostas pedogenéticas incluíram gipsificação pronunciada (precipitação de gipsita em bioporos, crostas superficiais e horizon-tes subsuperficiais, com índices de saturação >1), calcificação incipiente em profundidade e gleização intermitente associada a condições redutoras temporárias. Os resultados do segundo capítulo revelaram que os solos apresentam teores totais de K₂O (3,9-4,1%) substancialmente superiores aos de solos tropicais intemperizados (1-2%), confirmando que há deposição pe-riódica de sedimentos ricos em minerais potássicos. Os teores de K trocável e K solúvel foram classificados como altos, embora apenas 4% do K total encontre-se prontamente disponível. Contrariamente à hipótese inicial, a fração silte (não a argila) constituiu o principal comparti-mento de fixação de K, mediada exclusivamente por vermiculita. A fração argila apresentou liberação de K, atribuída à alteração de ilita. A sequência de transformação mineralógica bio-tita → vermiculita → illita → caulinita reflete estágios progressivos de intemperismo que in-fluenciam a dinâmica de K. Conclui-se que a compreensão integrada dos processos pedogeo-químicos que controlam tanto a acumulação de sais quanto a dinâmica de nutrientes fornece base científica para classificação taxonômica mais realista, avaliação de riscos ambientais e delineamento de melhores estratégias de manejo para semiárido brasileiro.