Matéria orgânica e suas relações com mercúrio em solos de manguezal do rio botafogo – PE, Brasil
Contaminação. Variabilidade vegetal. Sulfetos. Atividades antrópicas.
O estuário do rio Botafogo, localizado no litoral norte de Pernambuco, é considerado uma das mais importantes faixas de mangues da região Nordeste do Brasil. A sua bacia hidrográfica contribui para o abastecimento de água potável para toda região metropolitana da capital do estado. Entretanto, há décadas que os impactos antrópicos vêm causando danos significativos aos manguezais deste estuário. Após a instalação da indústria soda-cloro na região nos anos 60, a liberação de contaminantes altamente tóxicos, como o mercúrio (Hg), no rio Botafogo contribuiu para o acúmulo deste metal nas florestas de manguezais. O trabalho objetivou identificar e relacionar os atributos químicos e a mineralogia do solo com a diversidade vegetal e a posição no estuário, com enfoque na atuação da matéria orgânica (MO) e minerais na dinâmica de Hg. Para isto, foram coletadas amostras de solo ao longo de diferentes domínios vegetais: Laguncularia racemosa, coexistência, Rhizophora mangle do estuário do rio Botafogo. A partir disto, os atributos químicos e físicos do solo e os teores totais dos metais pesados foram determinados. Em seguida, a matéria orgânica do solo foi caracterizada, sendo avaliada a origem, estabilidade e composição bioquímica. Também foi realizada a caracterização mineralógica do solo e especiação de S. Os resultados apontam a contaminação de Hg nas três florestas, com concentrações seguindo um gradiente crescente em direção a fonte poluidora. A MO obteve diferenças em origem, estabilidade e grupos funcionais, principalmente em relação a floresta de R. mangle, localizada próximo a foz do rio. A caracterização da MO revelou também maior proporção de C oxidado, os quais podem atuar na retenção de Hg. A assembleia de silicatos dos solos não variou e destacou as presenças de caulinita, quartzo, muscovita, ilita e esmectita. Pirita e carbonatos foram identificados, porém a presença de carbonatos ficou restrita as áreas próximas a foz do rio. O Hg se encontrou associado a pirita, e os dados de especiação de S revelaram possível contribuição também de S orgânico, como tiol. A qualidade da MO, mineralogia do solo e especiação de S possibilitaram o avanço nas discussões de caracterização de manguezais contaminados com ênfase na interação com Hg, destacando o papel de filtro geoquímico dos sulfetos minerais e orgânicos na retenção deste metal. Logo, ressaltamos o cuidado em evitar alterações nas condições biogeoquímicas do solo, principalmente pelas atividades antrópicas, caso contrário esses solos não terá mais papel de filtro, e sim de fonte de contaminantes para os demais ambientes em volta.