ESTOQUES DE CARBONO E GEOQUÍMICA DE TECNOSSOLOS DE REJEITOS DE MINERAÇÃO APÓS QUATRO DÉCADAS
Solos antropogênicos; elementos-traço; carbono inorgânico; solos tecnogênicos; semiárido brasileiro; variabilidade espacial.
A mineração de scheelita no semiárido brasileiro gera grandes volumes de rejeitos ricos em carbonatos e elementos-traço, constituindo um passivo ambiental relevante no semiárido. A construção de Tecnossolos a partir desses materiais é uma alternativa para restaurar áreas degradadas, mas ainda há lacunas quanto à estabilidade geoquímica e ao potencial de estoque de carbono. Este estudo avaliou, na Mina Brejuí (Currais Novos, Rio Grande do Norte), a maior mina de scheelita da América do Sul, em operação desde a década de 1940, os estoques de carbono orgânico (CO), inorgânico (CI) e total (CT), além da variabilidade espacial de atributos físicos e químicos de Tecnossolos após 40 anos de desenvolvimento. As rochas formadoras dos rejeitos apresentaram forte heterogeneidade mineralógica (mármore, tactito e gnaisse), controlando a alcalinidade e a composição geoquímica dos solos. Os Tecnossolos mantiveram pH fortemente alcalino (8,0–8,9) e textura predominantemente arenosa. Em quatro décadas, o CO aumentou de 0,02% para 0,63%, com incremento do estoque superficial de 0,89 para 25,80 Mg ha⁻¹ (≈30 vezes). O CI permaneceu dominante e praticamente estável (148,48 para 146,10 Mg ha⁻¹), refletindo a herança carbonática. Como resultado, o estoque total de carbono aumentou de 149,37 para 171,90 Mg ha⁻¹. Cobre (0,1–4,5 mg kg⁻¹), Ni (0,05–0,35 mg kg⁻¹) e Co (0,16–0,50 mg kg⁻¹) apresentaram baixas concentrações disponíveis, consistentes com o controle exercido pelo pH elevado e pelos carbonatos. A geoestatística evidenciou elevada heterogeneidade espacial, com zonas distintas de acúmulo de nutrientes e elementos potencialmente tóxicos. Apesar da estabilidade geoquímica, P e Mg permaneceram como limitações agronômicas sob ambiente carbonático. Em síntese, Tecnossolos derivados de rejeitos de scheelita no semiárido combinam alto estoque total de carbono, predominância de carbono inorgânico estável e baixa mobilidade de metais, evidenciando potencial relevante para recuperação ambiental e serviços ecossistêmicos em áreas pós-mineração.