CULTIVO DE QUINOA (Chenopodium quinoa Willd.) EM SOLOS SALINOS-SÓDICOS DO SEMIARIDO DE PERNAMBUCO
Biochar, fitoextração de sais, genótipos, espinafre, glândulas de acúmulo de sais.
A salinização dos solos é um dos fatores de redução da produtividade em terras agrícolas. Com base nisto, a busca por culturas tolerantes à salinidade/sodicidade vem se intensificando. A quinoa (Chenopodium quinoa Willd.) é uma halófita facultativa, com alto valor nutricional capaz de auxiliar na mitigação da fome. O espinafre (Spinacia oleracea L.), apesar de glicófita, tem potencial genético para tolerar solos salinizados. Este trabalho testou dois genótipos de quinoa (CPAC 09 e CPAC11 - EMBRAPA Cerrados) e o espinafre (cv. Gazelle), em solos salino-sódicos, em quatro experimentos. Dois experimentos foram conduzidos em casa de vegetação, com a quinoa (genótipo CPAC 09), nos períodos de inverno e verão no Brasil, em três solos (dois salinos e um não salino) encontrados no semiárido pernambucano (Cambissolo Flúvico, Neossolo Flúvico e Planossolo Nátrico), sob adição de biochar de casca de arroz (0, 10, 20, 40, 60, 80 e 100 t ha-1), em blocos casualizados e quatro repetições. Foram avaliados atributos químicos e físicos dos solos e realizadas avaliações biométricas, nutricionais e enzimáticas nas plantas. No inverno, a taxa de sobrevivência da quinoa foi de 100% e no verão, sob doses mais baixas de biochar e em solos salinos, foi de 25 a 50%. Em doses mais altas (80 e 100 t ha-1) a sobrevivência foi 50-100% a depender do solo. O biochar reduziu o pH, a CEe e a RAS em solos alcalinos e salinos e aumentou o pH em solo ácido. Também foi fonte de K+, sendo também responsável pela redução da Ds e aumento da Ksat em solos arenosos, afetando negativamente a Ksat do Neossolo, devido à sua interação com areia fina e silte em altas concentrações. A melhoria nos atributos químicos e físicos dos solos favoreceu o desenvolvimento da quinoa, aumentando sua biomassa e a relação K+/Na+. Para o CPAC 09, o potencial de fitoextração seguiu a ordem de K>Cl>Mg>Ca>Na, no inverno e K>Cl>Mg>Na>Ca no verão. No terceiro experimento foram avaliados dois genótipos de quinoa (CPAC 09 e CPAC11) e o espinafre (cv. Gazelle), sendo conduzido a partir da aplicação de águas salinas (2, 25, 40 e 55 dS m-1), em casa de vegetação, com delineamento em blocos casualizados e quatro repetições. O espinafre foi submetido à CEa de 2 e 25 dS m-1, em quatro repetições. Foram feitas avaliações químicas nos solos e biométricas, nutricionais e fisiológicas nas plantas. Para a quinoa, houve redução entre 50 e 60% na produtividade de grãos entre as CEa de 2 e 25 dS m-1 e em mais de 95% sob CEa de 55 dS m-1. Para o espinafre, a redução na produtividade foi de 80% entre as CEa de 2 e 25 dS m-1. Após os tratamentos, os solos apresentaram uma concentração crescente de sais, principalmente Na+ e Cl-, aumentando o teor desses elementos nos tecidos vegetais das culturas. As culturas apresentaram alto potencial em solos salinos, chegando a sobreviver sob CEe entre 25-30 dS m-1 (espinafre), e mais de 65 dS m-1 (quinoa). No quarto experimento, foram identificadas glândulas de sais no espinafre semelhante as da quinoa, resultado inédito na literatura. Para a detecção das glândulas no espinafre foram usadas as variedades Gazelle e Seaside e o genótipo de quinoa CPAC 09. As glândulas foram analisadas a partir da microscopia ótica, confocal e MEV-EDS. Avaliações genéticas foram feitas para a identificação de 19 genes relacionados à tolerância a sais em folhas e glândulas isoladas do espinafre. As glândulas do espinafre foram responsáveis pelo acúmulo de sais de Na, Cl e K e as da quinoa pelo acúmulo de K e Cl. Isto comprova a presença de mecanismos de tolerância do espinafre à solos salino-sódico, sendo proposto a reclassificação desta planta de glicófita para halófita facultativa, similar a quinoa.